Cabral e Pezão: os R$ 4 bilhões que voltam à pauta e o passado que o Rio insiste em não enterrar
Condenados por improbidade administrativa, ex-governadores fluminenses enfrentam nova cobrança bilionária. Pezão, agora prefeito de Piraí, volta ao centro das atenções políticas e jurídicas.
O roteiro parece conhecido: um ex-governador condenado, outro no cargo de prefeito, e o Estado do Rio de Janeiro mais uma vez às voltas com os fantasmas da corrupção. A Justiça determinou que Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão devolvam juntos mais de R$ 4 bilhões aos cofres públicos, em mais um desdobramento dos casos de improbidade administrativa que marcaram uma era de promessas quebradas e orçamentos afundados.
Cabral foi condenado a pagar cerca de R$ 2,5 bilhões, enquanto Pezão — que hoje ocupa o cargo de prefeito de Piraí — deverá devolver R$ 1,4 bilhão. O ex-secretário Hudson Braga completa a lista com uma multa de R$ 35 milhões. A sentença inclui ainda a suspensão dos direitos políticos: dez anos para Cabral e nove para Pezão.
Mas a ironia dos fatos fala por si: mesmo condenado por improbidade, Pezão conseguiu reassumir a prefeitura de Piraí, cidade onde iniciou sua trajetória política, graças a uma liminar do Supremo Tribunal Federal (STF) que restabeleceu seus direitos políticos. Em 2024, ele foi eleito com mais de 58% dos votos válidos, e hoje governa amparado por uma decisão provisória — o que, na prática, mantém seu mandato em aberto.
A nova condenação reacende o debate sobre a elasticidade das leis eleitorais e o tempo da Justiça brasileira, que, muitas vezes, chega tarde demais. Enquanto os recursos se arrastam entre instâncias e embargos, o cidadão fluminense continua pagando caro por gestões que deixaram um rastro de dívidas, obras inacabadas e descrença institucional.
De acordo com o Ministério Público, Cabral e Pezão teriam usado o sistema de incentivos fiscais do estado para beneficiar empresas em troca de doações eleitorais não declaradas.
Cabral, que acumula diversas condenações, já recorreu da decisão alegando omissões processuais. Pezão, por enquanto, mantém silêncio, mas seus advogados estudam medidas para reverter o caso. Nenhum dos dois demonstra arrependimento público — talvez porque, no Rio, condenação e retorno político parecem fazer parte do mesmo ciclo.
A pergunta que ressurge é simples e incômoda: como dois ex-governadores condenados por improbidade ainda circulam entre cargos, palanques e manchetes, enquanto o estado luta para equilibrar as contas e reconstruir a confiança popular?
A resposta talvez esteja na lentidão de um sistema que pune, mas não impede; que condena, mas permite o retorno. Um sistema onde o peso das decisões judiciais é, muitas vezes, mais simbólico do que efetivo.
Cabral tenta se manter fora das grades e Pezão administra Piraí como se o passado fosse um detalhe superado. Mas para o eleitor fluminense, cansado de escândalos e recomeços forçados, a sensação é outra: o Rio ainda paga — e vai continuar pagando — a conta de uma política que aprendeu a sobreviver às suas próprias condenações.
Por: Arinos Monge




