DO VOLOVELISMO DE 1977 AO VOO A VELA QUE RESISTE HOJE, O CÉU DA CIDADE CONTINUA ABERTO PARA QUEM CONHECE A HISTÓRIA
Quem passa apressado pelo centro de Nova Iguaçu talvez nem perceba. Mas ali, no meio da cidade, existe um lugar onde o silêncio fala alto. Onde o vento ainda manda. Onde o céu nunca fechou de verdade. O aeroporto pode até estar fora de operação, mas Nova Iguaçu ainda voa. E quem conhece sabe.
Estamos falando de uma cidade com cerca de 843 mil moradores, coração da Baixada Fluminense, que guarda uma das histórias mais bonitas — e menos contadas — da aviação no Estado do Rio. Uma história que começa lá atrás, em 1942, quando a Aeronáutica pousou por necessidade e acabou ficando por estratégia. Mas que ganha alma mesmo no voo a vela, o volovelismo, aquele voo limpo, sem motor, que depende só do vento, da técnica e da coragem do piloto.
Em 1977, isso já era realidade por aqui. Um cinejornal da Agência Nacional, órgão oficial de comunicação do Estado brasileiro, registrou Nova Iguaçu como palco do voo a vela. As imagens estão guardadas no Arquivo Nacional e mostram planadores, pilotos, instrutores e uma rotina organizada acontecendo no Aeroclube de Voo a Vela do Rio de Janeiro, dentro da área do aeroclube da cidade. Não era aventura, não era improviso. Era aviação reconhecida, autorizada e praticada com seriedade.
E é importante dizer: esse aeroclube não é personagem de arquivo. Ele tem nome, identidade e registro. O Aeroclube de Voo a Vela do Rio de Janeiro foi formalmente constituído em 23 de junho de 1977, com sede em Nova Iguaçu. É prova concreta de que o céu da cidade sempre teve dono: quem sabe voar.
Quase cinquenta anos depois, o aeroporto foi sendo fechado, esquecido em gavetas, tratado como problema urbano. Mas o voo a vela resistiu. E nessa resistência surgem personagens que mantêm essa história de pé. Um deles é conhecido de quem vive a aviação: o Comandante Silva. Piloto experiente de helicóptero, velho conhecido dos céus do Rio, figura presente nas redes sociais, homem de hangar, de pista, de conversa reta.
Gente como ele não fala de aeroporto como quem fala de terreno. Fala como quem fala de casa. Para quem vive a aviação, Nova Iguaçu nunca perdeu sua vocação. Ela só perdeu atenção. Porque o vento continua lá. As térmicas continuam lá. A história continua lá. E o voo a vela é a prova viva disso.
Enquanto outras cidades entenderam que aeródromo não é luxo, é desenvolvimento — Cabo Frio, Macaé, Resende, Angra, Paraty — Nova Iguaçu ficou parada no tempo. E não precisava. Reabrir o aeroporto não é trazer avião comercial nem disputar espaço com grandes terminais. É assumir o que já existe: aviação esportiva, planadores, ultraleves, formação técnica, educação, turismo e identidade.
O voo a vela ensina muito sobre isso. Ele não faz barulho, não polui, não atropela a cidade. Ele sobe devagar, lê o vento, respeita o espaço. É exatamente o tipo de aviação que combina com Nova Iguaçu. E é exatamente o tipo de futuro que a cidade pode escolher.
A história está documentada. O aeroclube tem nome. O voo a vela está vivo. Os personagens existem. Falta apenas decisão. Falta alguém com coragem de olhar para cima e dizer em voz alta aquilo que quem conhece a pista já sabe há muito tempo:
Nova Iguaçu não nasceu para ficar no chão.




