Na Zona Sul, faltou luz? A Justiça corre, a multa vem pesada, diária, com valor de gente grande. Em Copacabana e no Leme, a Light virou réu em tempo recorde e o martelo bateu forte: punição alta, cobrança pública e recado claro. Serviço ruim ali custa caro. Bem caro.
Agora, atravessa o túnel. Vai para a Região Metropolitana, para a Baixada Fluminense. A luz cai, o prejuízo se espalha, o comerciante perde mercadoria, o trabalhador perde o dia, o morador perde a paciência — e o que acontece? Nada. Ou quase nada. Processo que não anda, multa que não chega, fiscalização que não aparece. O apagão é coletivo, mas a Justiça parece individualizada por CEP.
A pergunta ecoa nas ruas quentes e mal iluminadas da Baixada: o que a Zona Sul tem que aqui não tem?
Resposta curta e amarga: peso político, vitrine, pressão. Lá, concessionária treme. Aqui, concessionária se acomoda.
E não é só a Light. É água que não chega, é trem que não anda, é ônibus sucateado, é serviço essencial tratado como favor. Para uns, o Estado é rápido, eficiente, rigoroso. Para outros, é lento, ausente, quase invisível. Parece exagero? Não é. Parece discurso? É realidade diária.
O Rio de Janeiro funciona como se fossem dois estados.
Um, o da vitrine: rico, turístico, protegido, onde prefeitos falam grosso e são ouvidos como se governadores fossem.
Outro, o do abandono: onde mora a maioria, mas decide a minoria; onde o problema é crônico e a solução nunca é prioridade.
Essa divisão não nasceu ontem. Ela tem data, assinatura e contexto. Em 1975, durante a ditadura militar, o então presidente Ernesto Geisel decretou a fusão do Estado da Guanabara com o antigo Estado do Rio de Janeiro. O povo? Não foi consultado. Não houve plebiscito, debate público ou escolha popular. Foi decisão de cima para baixo, feita às pressas, nos gabinetes.
Na época, governavam Chagas Freitas (Rio de Janeiro) e Faria Lima (Guanabara). A promessa era integração, desenvolvimento equilibrado, força administrativa. O que veio depois foi outra coisa: concentração de poder, recursos e atenção de um lado só. A antiga Guanabara seguiu sendo o centro das decisões. O interior e a Baixada ficaram como periferia política permanente.
Décadas depois, o resultado está aí. Quando falta luz no asfalto nobre, a Justiça age com pressa e rigor. Quando o breu toma conta da Baixada, sobra discurso, protocolo e silêncio. A lei é a mesma, mas a velocidade muda. O valor da multa muda. A indignação institucional muda.
No papel, somos um só estado.
Na prática, somos dois Rios.
E, curiosamente, só um deles tem luz garantida — inclusive nos tribunais.




