Manutenção pra quem? Água some na Baixada enquanto o Guandu ganha “upgrade” e o povo ganha balde
Obras, bombas e promessas sobram para a capital — já em Nova Iguaçu, sobra é revolta, torneira seca e conta cheia.
A parada do Sistema Guandu veio com discurso de sempre: manutenção pra melhorar a qualidade, revisar equipamentos e garantir estabilidade. Bonito no papel. Mas, na Baixada, a realidade bateu seco — igual às torneiras.
Enquanto a concessionária fazia quase 90 obras para reforçar o abastecimento, a sensação por aqui foi outra: o sistema recebeu bomba nova, e o povo recebeu balde. A Águas do Rio celebrou modernização; o iguaçuano celebrou se conseguiu encher uma garrafa.
Em Miguel Couto, José Antônio Queiros resumiu o sentimento com aquela ironia que vem da dor:
“Manutenção pra melhorar? Pra quem? Pro Rio? Porque aqui a água some, mas a conta chega.”
E chega mesmo — cheia, redonda, e muitas vezes sem uma gota de serviço prestado.
Em Austin, no KM 32 e no K11, a reclamação é igual, só muda o CEP. Moradores enfrentam o velho roteiro: manutenção no Guandu, pane na Baixada. Ajuste nos equipamentos, bagunça no abastecimento. Promessa de estabilidade, vida instável no balde.
O advogado Marcos Antônio não poupou palavras:
“É pouca vergonha. A Justiça protege, a concessionária reajusta, e o consumidor paga por algo que não recebeu. A água some, mas o boleto nunca some.”
Teve quem perdesse mercadoria, como o comerciante Paulo Menezes, que vive no sufoco pra manter higiene no negócio:
“Todo ano a mesma cantiga. Se melhorasse, a gente sentia. Mas a única coisa que melhora é o valor da conta.”
E o ponto mais irônico disso tudo é o que todo mundo repete nas esquinas da cidade iguaçuana:
“A água nasce aqui, passa aqui e some aqui… mas chega tinindo na capital.”
A professora aposentada Clarice Amaral fechou o raciocínio com aquela sinceridade sem filtro:
“Falam em modernização, mas o moderno é a gente reaprender a viver sem água.”
No fim, manutenção é importante, claro.
Mas pra quem mora em Nova Iguaçu, manutenção virou sinônimo de transtorno, desigualdade e falta de respeito.
A obra acontece lá.
O sofrimento acontece aqui.
E enquanto o sistema ganha ‘upgrade’, a Baixada ganha mais uma semana de banho cronometrado, louça acumulada e paciência espremida.




