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Todo mundo que já tentou passar o Carnaval, o Ano Novo ou um feriadão na Costa Verde fluminense conhece o verdadeiro teste de paciência que é a Rodovia Rio-Santos (BR-101). O trânsito trava por quilômetros, o calor castiga e uma viagem que deveria durar pouco mais de uma hora vira um martírio de quatro ou cinco horas. O que pouca gente sabe é que o Rio de Janeiro tinha a faca e o queijo na mão para evitar esse caos: o projeto de eletrificação do Ramal de Mangaratiba, uma linha histórica de 81,1 quilômetros que ligaria a capital direto ao litoral sobre trilhos.
Se esse projeto tivesse saído do papel, a dinâmica dos grandes feriados e das festas populares seria completamente diferente. O gargalo da região é a total e exclusiva dependência do asfalto. De acordo com dados da concessionária RioSP, mais de 400 mil veículos cruzam o trecho da Rio-Santos durante o Carnaval. Em vez do sufoco nos carros e nos ônibus interestaduais, o morador da Zona Norte, da Zona Oeste e da Baixada Fluminense poderia simplesmente embarcar em um trem elétrico moderno e desembarcar direto na Estação de Mangaratiba, a poucos passos das praias e do cais de turismo. Um trem elétrico de alta capacidade funcionaria como uma válvula de escape perfeita, limpando o trânsito da rodovia e garantindo uma viagem com hora certa para chegar.
Para o turismo local, a ausência desse trem gera um prejuízo incalculável diante do fenômeno da população flutuante. De acordo com o Censo do IBGE, Mangaratiba tem uma população residente de aproximadamente 41,2 mil habitantes. No entanto, durante as festas de fim de ano e o Carnaval, o município chega a receber mais de 150 mil pessoas temporárias, entre veranistas e turistas — fazendo a população local quase quadruplicar no pico dos eventos.
Esse mar de gente sobrecarrega completamente a infraestrutura da rodovia. A Estação de Mangaratiba fica colada ao cais de onde partem as embarcações para a Ilha Grande, um dos destinos mais cobiçados do mundo. Sem os trilhos, esse enorme contingente flutuante precisa disputar as faixas estreitas da Rio-Santos para acessar os distritos de Itacuruçá, Muriqui e Conceição de Jacareí. O trem elétrico criaria um corredor turístico direto e integrado, transformando a experiência de quem visita o estado e aliviando o tráfego de quem decide morar permanentemente na região.
Além disso, o sumiço do transporte de passageiros escancara uma injustiça na mobilidade. Enquanto o cidadão comum e o turista ficam presos nos engarrafamentos, os trilhos do ramal continuam funcionando a pleno vapor — mas apenas para transportar minério de ferro em trens de carga pesada em direção ao Porto de Itaguaí. O lucro das empresas privadas passa direto pelos trilhos, enquanto o morador local assiste a tudo parado na estrada ou espremido no ponto de ônibus da rodovia.
O Ramal de Mangaratiba hoje é o retrato de um Rio de Janeiro que parou no tempo e escolheu o caminho do congestionamento rodoviário. Olhar para o trânsito travado de um feriadão na Costa Verde deixa claro que a solução para a nossa mobilidade não está em abrir mais espaço para carros, mas sim em resgatar a ferrovia a favor da população e do desenvolvimento regional.



