São Fidélis vai ferver nesta quinta-feira, 27 de agosto. A 14ª Expo São Fidélis recebe Ana Castela, uma das artistas mais populares do país. O palco promete lotação, música alta e muita festa. Mas, antes mesmo de começar o show, quem está fazendo barulho são os números.
São R$ 850 mil previstos para o cachê de Ana Castela. E há ainda outros R$ 200 mil relacionados à contratação da dupla Antony & Gabriel. Juntos, os dois valores chegam a R$ 1,05 milhão.
O dinheiro entra na história por meio de uma emenda parlamentar de R$ 1 milhão destinada ao município pela deputada federal Dani Cunha, do PL. A Prefeitura de São Fidélis, comandada pelo prefeito José William Ribeiro de Oliveira, do PL, ficou responsável pela aplicação dos recursos dentro da finalidade prevista.
A matemática, como sempre, não perde uma oportunidade de aparecer. A emenda é de R$ 1 milhão, enquanto os dois shows somam R$ 1,05 milhão. A diferença de R$ 50 mil é apontada como contrapartida municipal. Ou seja, segundo as informações divulgadas, a Prefeitura teria colocado dinheiro próprio para completar a conta.
Até aí, a calculadora respira aliviada.
Mas a pergunta jornalística continua de pé: quanto vai custar a Expo São Fidélis inteira?
Porque os R$ 850 mil de Ana Castela não representam necessariamente o custo total do espetáculo. Ainda existem palco, som, iluminação, segurança, estrutura, hospedagem, transporte, equipes e outros serviços.
E tem um ingrediente que deixa essa festa ainda mais interessante: tudo acontece em pleno período eleitoral.
Hoje é 27 de agosto. O primeiro turno das eleições será em 4 de outubro. A campanha está nas ruas, os candidatos estão pedindo votos e qualquer evento público de grande porte naturalmente passa a receber uma atenção maior.
Isso não significa que a Expo seja ilegal. A legislação eleitoral não proíbe automaticamente festas municipais ou shows durante o ano eleitoral. Existem, porém, regras específicas para publicidade institucional, promoção pessoal de agentes públicos, inaugurações com shows e utilização política de eventos custeados pelo poder público.
Por isso, o que precisa ser observado é como o evento está sendo utilizado, quem aparece na divulgação, se existe promoção de candidatura e como os recursos foram aplicados.
A emenda de Dani Cunha também precisa ser separada da execução municipal. A deputada destinou o recurso. A decisão sobre sua utilização, dentro da finalidade autorizada, ficou com a Prefeitura.
E aí entra São Fidélis.
Enquanto o palco recebe uma das maiores estrelas da música brasileira, o município continua convivendo com problemas que não desaparecem quando a música começa.
A cidade enfrenta demandas de infraestrutura, manutenção de vias, estradas vicinais e problemas provocados por chuvas fortes, alagamentos e deslizamentos. O município chegou a ter situação de emergência reconhecida em razão dos impactos provocados pelas chuvas.
Também existem necessidades permanentes nas áreas de saúde, educação e serviços públicos.
Nada disso impede a Prefeitura de realizar uma festa. Turismo, cultura e entretenimento também movimentam a economia e podem gerar renda para comerciantes, hotéis, restaurantes e trabalhadores.
Mas R$ 850 mil em uma única apresentação não é troco de festa.
É dinheiro suficiente para provocar perguntas.
E a principal delas é simples: se existe dinheiro de emenda para turismo, qual é o retorno esperado para a cidade?
Quantas pessoas devem visitar São Fidélis?
Quanto o comércio deverá movimentar?
Quanto a Prefeitura espera arrecadar?
E quanto custará a festa inteira?
A população não precisa ser contra a festa para fazer essas perguntas. Pelo contrário. Quanto maior o investimento público, maior deve ser a transparência.
Ana Castela vai cantar.
Antony & Gabriel já cantaram.
A festa passa.
Mas os contratos, empenhos e pagamentos ficam registrados.
E é aí que começa a parte menos divertida da festa: conferir a conta.
Porque no palco, quem manda é o artista.
No caixa público, quem manda é a transparência.
Por Jornalista Arinos Monge
Fontes: Prefeitura Municipal de São Fidélis; Diário Oficial do Município; Portal da Transparência; Câmara dos Deputados; Tribunal Superior Eleitoral; IBGE; Poder360; Ururau; Folha de S.Paulo; Band; Agenda do Poder e informações públicas sobre a Expo São Fidélis.



