
Se tem uma coisa que americano gosta é de um bom dramalhão político. Mas desta vez, o protagonista não foi Donald Trump, e sim o senador democrata Cory Booker, que resolveu testar os limites da bexiga humana e discursar por mais de 18 horas sem pausa.
Se fosse no Brasil, a gente já imaginaria Bolsonaro rindo e soltando um “E dai? Vai chorar? Vai ficar falando até quando?”. Mas, como estamos falando dos Estados Unidos, o caso foi levado com a seriedade de um filme de Frank Capra – mais especificamente, “A Mulher Faz o Homem” (1939), só que sem o glamour do cinema clássico.
O senador, indignado com as “ações inconstitucionais” de Trump, resolveu dar aquele sermão interminável, cheio de frases de efeito dignas de uma sessão da Câmara dos Deputados brasileira em dia de CPI. “Americanos de todas as origens passam por dificuldades desnecessárias”, lamentou, antes de acusar o magnata-presidente de estar destruindo a segurança nacional, a economia e a democracia – tudo isso em apenas 71 dias. Um verdadeiro recorde. Bolsonaro levaria pelo menos 100 dias para conseguir o mesmo feito, com direito a transmissão ao vivo no cercadinho.
Para quem acha que política é um teatro, Booker mostrou que tem vocação para protagonista. Sem poder ir ao banheiro – e sem um Pazuello para garantir um penico oficial –, o senador seguiu firme no seu discurso, mesmo sabendo que, no fim, os republicanos continuariam a tocar a política de Trump como se nada tivesse acontecido.
O senador ainda pediu união para barrar as decisões mais agressivas do presidente, como cortes de 800 bilhões no Medicaid (o seguro de saúde público para os mais pobres), uma medida que tem tudo para virar exemplo para os defensores do “cidadão de bem” e do “acaba com essa mamata” no Brasil. Afinal, cortar direitos sociais sempre tem um marketing impecável, né?
Para os republicanos, Booker foi apenas um falador incansável. Para os democratas, um herói da resistência. Para o brasileiro médio, um político que devia investir num curso de oratória do Olavo de Carvalho, porque até Bolsonaro consegue ser mais objetivo quando manda um “tá ok?” e encerra a conversa.