Bilhões no papel, lama nas ruas: o Rio da drenagem prometida e das obras que não saem do chão
Enquanto governos anunciam cifras históricas para conter enchentes e deslizamentos, municípios da Baixada e do interior seguem convivendo com valões lotados, encostas frágeis e projetos travados em pleno ano eleitoral
No tabuleiro político fluminense de 2026, os números impressionam. São bilhões anunciados em discursos, solenidades e programas de infraestrutura. Mas, nas ruas, a realidade ainda escorre pela lama, pelos alagamentos e pelas obras que seguem no papel.
De um lado, o Governo Federal abriu os cofres do Novo PAC Seleções e empenhou R$ 11,7 bilhões para drenagem, contenção de encostas e prevenção de tragédias climáticas em todo o país. Na capital, a Prefeitura do Rio colocou em vitrine o chamado “PAC das Encostas”, com previsão de R$ 688 milhões em investimentos. Já na Assembleia Legislativa do Rio, o Fundo Especial da Alerj virou a principal engrenagem de repasses emergenciais para municípios castigados pelas chuvas.
Mas existe um detalhe que desmonta parte da narrativa oficial: o cancelamento do Projeto Iguaçu, estimado em R$ 736 milhões. A paralisação e o adiamento das licitações estaduais para o fim de 2026 acenderam um sinal vermelho justamente em regiões historicamente castigadas por enchentes, como a Baixada Fluminense.
Na prática, o cenário virou um retrato clássico da política em ano eleitoral: muito anúncio, muito recurso divulgado, muita coletiva… e pouca retroescavadeira na rua.
Entre os municípios fluminenses, a capital lidera o ranking de investimentos anunciados, com R$ 258 milhões voltados ao PAC das Encostas em parceria com o Governo Federal. Logo atrás aparece Maricá, que recebeu R$ 159,1 milhões para saneamento e drenagem — considerado um dos maiores pacotes já destinados ao município.
Na Região Serrana, Petrópolis aparece com R$ 60 milhões previstos para obras em encostas e urbanização, tentando evitar que tragédias históricas se repitam.
Já Nova Iguaçu, uma das cidades mais atingidas pelos problemas crônicos de drenagem na Baixada, teve anunciados R$ 49 milhões para construção de piscinões pelo Novo PAC Seleções.
Enquanto isso, outros municípios afetados pelas chuvas, como Mesquita, Japeri e Magé, aparecem no pacote emergencial da Alerj com repasses de R$ 1,75 milhão para cada cidade — valores considerados insuficientes diante da dimensão dos problemas estruturais enfrentados diariamente pela população.
No meio desse xadrez orçamentário, moradores seguem convivendo com valões assoreados, rios sem dragagem, ruas sem drenagem e encostas ameaçando desabar a cada temporal.
A conta política é simples: obra parada não rende inauguração. E sem obra concluída, sobra para a população o velho roteiro fluminense — promessas bilionárias anunciadas nos palanques enquanto a água continua entrando pela porta da frente das casas.



