Obras de macrodrenagem em Belford Roxo e o histórico de alagamentos em Nova Iguaçu levantam uma questão que exige respostas: o sistema está preparado para receber e conduzir o volume das chuvas sem transferir o problema de um bairro para outro?
A cada chuva forte, o medo volta a tomar conta de moradores de diferentes regiões da Baixada Fluminense. Em Santa Eugênia, Nova Iguaçu, os relatos são preocupantes: imóveis invadidos pela água, estabelecimentos comerciais atingidos repetidas vezes e famílias que, segundo moradores, chegaram a abandonar suas casas diante da repetição dos alagamentos.
A situação provoca uma pergunta que não pode ser ignorada: se obras de canalização e drenagem foram anunciadas justamente para reduzir as enchentes, por que tantas pessoas ainda convivem com o temor de perder tudo quando o céu escurece?
O problema não se resume à água que transborda de um rio. Há relatos de água entrando pelos terrenos e retornando pelas tubulações de esgoto, alcançando, em alguns casos, mais de um metro dentro das residências. São situações que precisam ser documentadas e investigadas tecnicamente, pois podem envolver falhas na drenagem pluvial, refluxo da rede sanitária, obstruções ou insuficiência da capacidade de escoamento.
Santa Eugênia: quando a chuva vira ameaça
Em Santa Eugênia, a preocupação dos moradores não desapareceu com as intervenções realizadas na região. Segundo relatos recebidos pela reportagem, os alagamentos continuam provocando insegurança, e um estabelecimento comercial que teria sido atingido diversas vezes instalou muros altos para tentar se proteger da entrada da água.
A imagem de muros erguidos para enfrentar as enchentes traduz uma realidade que merece atenção. Quando uma família precisa pensar em abandonar o próprio imóvel e um comerciante modifica a estrutura do estabelecimento para se defender da chuva, o problema deixa de ser apenas uma questão de infraestrutura. Passa a afetar o direito à moradia segura, o trabalho e a tranquilidade de toda uma comunidade.
A canalização do trecho do Rio Botas conhecido como canal do Extra foi apresentada pelo poder público como uma intervenção destinada a melhorar as condições locais e reduzir transbordamentos. Por isso, é necessário comparar o projeto executado com os resultados observados pelos moradores, verificando o que funcionou, o que não funcionou e quais medidas ainda são necessárias.
Belford Roxo e Nova Iguaçu: a água não conhece limites municipais
A preocupação também alcança Belford Roxo, onde as obras de macrodrenagem do Rio Maxambomba vêm sendo divulgadas como parte dos esforços para reduzir os alagamentos.
A Prefeitura de Belford Roxo informou que a intervenção ultrapassa R$ 100 milhões e inclui melhorias no canal e na área ao redor. Já o portal estadual de projetos registra um investimento de aproximadamente R$ 86,6 milhões para a obra de macrodrenagem. A diferença entre os valores precisa ser esclarecida pelas autoridades, com a apresentação dos contratos, dos aditivos e do escopo financeiro considerado em cada divulgação.
O ponto central, entretanto, vai além dos números.
Rios e canais fazem parte de um sistema hidráulico que atravessa territórios. A água que escoa por uma região pode alcançar outra. Por isso, uma obra não deve ser avaliada somente pelo trecho em que as máquinas trabalham, mas também pela capacidade dos canais que recebem o volume conduzido e pelas condições existentes nos pontos de saída.
Uma canalização bem dimensionada pode melhorar o escoamento e eliminar gargalos. Mas, se a água chega a um trecho incapaz de recebê-la, se há obstruções ou se o nível do rio receptor está elevado, o risco de represamento e inundação pode permanecer ou se deslocar para outros pontos.
Isso não significa afirmar que a obra do Maxambomba causará alagamentos em Nova Iguaçu. Essa conclusão depende de estudos hidráulicos, mapas da bacia, cálculos de vazão e análise das conexões entre os cursos d’água. O que se exige é que esses estudos existam, sejam consistentes e possam ser examinados pela sociedade.
Um alerta que já apareceu na Justiça
A preocupação com os efeitos de intervenções sobre o escoamento não é apenas teórica. Em agosto de 2026, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro informou sobre uma decisão judicial envolvendo uma estrutura no Canal Andrade de Araújo, em Belford Roxo. Segundo o órgão, o manilhamento realizado no local reduziu a capacidade de vazão e contribuiu para agravar o risco de alagamentos em áreas de Nova Iguaçu.
O caso não comprova que todas as obras de canalização apresentem o mesmo problema. Mas demonstra a importância de avaliar as consequências de cada intervenção e de considerar o comportamento da água para além dos limites de uma única cidade.
A questão ganha ainda mais relevância diante do Projeto Iguaçu, programa regional de controle de inundações e recuperação ambiental que envolve as bacias dos rios Iguaçu, Botas e Sarapuí, com investimentos estimados em aproximadamente R$ 1 bilhão para o conjunto de intervenções divulgado em outubro de 2026.
Em uma iniciativa dessa dimensão, a população precisa conhecer os projetos, os cronogramas, os recursos destinados a cada etapa e os resultados esperados. Também precisa saber como as obras se articulam e de que forma será avaliado o impacto sobre as áreas que recebem as águas.
A pergunta que precisa de resposta
Não basta anunciar metros de canal concretados, pontes reconstruídas ou espaços de lazer revitalizados. Esses investimentos podem ser importantes para a cidade, mas a finalidade da macrodrenagem precisa ser verificada pela capacidade real de reduzir o risco de inundação.
As autoridades responsáveis precisam esclarecer se os projetos consideram chuvas intensas, obstruções, assoreamento, a capacidade dos trechos receptores e o possível retorno da água pelas redes de drenagem e esgoto. Também precisam apresentar os procedimentos de manutenção e os planos de resposta quando o sistema ultrapassa sua capacidade.
Em Santa Eugênia, os moradores relatam que o sofrimento continua. Em Belford Roxo, uma obra de grande porte segue em execução. E, em toda a Baixada, permanece uma preocupação legítima: o que acontece quando a chuva despeja um volume de água maior do que os canais conseguem conduzir?
A resposta não pode depender apenas de promessas ou de explicações depois que as casas já foram invadidas.
A população precisa de transparência, prevenção e segurança. A água precisa ter por onde passar, e as obras públicas precisam demonstrar que foram planejadas para proteger as pessoas — não apenas para modificar a paisagem urbana.
Por: Jornalista Arinos Monge




