Enquanto a plateia de crianças lota a pipoca e o cinema, surgem perguntas sobre o alcance real das políticas públicas: é evento de um dia ou cuidado de cada dia
Na última sexta-feira, a Prefeitura de São João de Meriti, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social de São João de Meriti, promoveu uma festa “especial” para as crianças atendidas pelo serviço de convivência e fortalecimento de vínculos (SCFV), na Casa da Cultura da Baixada Fluminense, em Vilar dos Teles. (São João de Meriti)
O evento contou com brincadeiras, atrações recreativas, sessão de cinema infantil com pipoca — ou seja: divertimento garantido para a garotada. (São João de Meriti)
A secretária Roberta Queiroz ressaltou que momentos como esse reforçam a política de cuidado e acolhimento do município. “O SCFV tem um papel fundamental… momentos de lazer e integração fazem toda a diferença no desenvolvimento das nossas crianças”, afirmou. (São João de Meriti)
E foi com sorriso nos rostos que os pequenos participaram: um deles, de 9 anos, vibrou com as brincadeiras; outro, de 11, disse que “foi um dos melhores dias” da vida dele. (São João de Meriti)
Mas, como coluna social que observa além da foto, é hora de refletir: essa festa abre flauta ou fecha lacuna?
- Quantas crianças assistidas pelo SCFV ficarão sem o dia de cinema, porque o evento é pontual, não rotina?
- Quanto do discurso de “cuidado” se transcende da diversão e se instala em acompanhamento constante, em fortalecimento de vínculo que vá além de pipoca e recreação?
- Se existe tanto destaque para o evento, por que não vemos o mesmo brilho no cotidiano das ruas, nas casas das famílias, nas oficinas, nas visitas e nos vínculos mantidos?
Não se trate de desmerecer o sorriso da criança — isso jamais — mas de perguntar se a festa não virou cartão-postal de boas intenções. Em cidade iguaçuan e na Baixada, onde a desigualdade bate à porta todo dia, uma sessão de cinema é ótimo momento, mas não substitui um programa estruturado, continuado, com presença e resultado.
Enquanto o projetor apaga, fica o convite: a verdadeira festa será quando os pequenos disserem “quero que tenha mais vezes” não por causa de pipoca, mas porque sempre tem, porque sempre funciona, e porque sempre importa. Até lá, que os flashes da Casa da Cultura iluminem também o que não aparece nas fotos: o compromisso diário, o vínculo que não quebra, a assistência que não tira férias.




