Por Jackson Vasconcelos
Há momentos em que bate, sim, uma saudade funda da cidade do Rio de Janeiro e do povo carioca de outros tempos. Uma época em que havia bom gosto nas manifestações culturais.
Essa saudade cresce quando vejo a obsessão por espetáculos grandiosos, pirotécnicos e de extremo mau gosto que Eduardo Paes patrocina. Tenho a sensação de que ele está gozando com a nossa cara.
Em 1990, aos 37 anos de idade, eu assisti, no Municipal, à Sinfonia do Rio de Janeiro, de Francis Hime — regida pelo próprio autor. Ali havia algo maravilhoso: um retrato musical da cidade, construído com rigor, sensibilidade e pertencimento. A Sinfonia do Rio de Janeiro foi encomendada pela Orquestra Sinfônica Brasileira e integrou as celebrações dos 450 anos da cidade.
A sinfonia percorreu os contrastes da vida carioca — da exuberância natural à densidade urbana — revelando, em suas melodias, tanto a alegria quanto a melancolia que definem a cidade.
Foi um ato de afirmação de um povo que, apesar das dificuldades, tinha alegria e respeito mútuo.
Quem quiser revisitar a obra pode encontrá-la no YouTube. Mas é inevitável reconhecer: a experiência ao vivo carregava uma densidade que nenhuma gravação reproduz.
Lady Gaga e Shakira são agressões à cultura carioca e brasileira.
E talvez o mais incômodo seja isso — quem viveu aquele Rio dificilmente imaginaria que, décadas depois, a cidade passaria a confundir projeção com identidade.



