A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL JÁ CHEGOU AO TRABALHO E AGORA COMEÇA A DISPUTA POR QUEM VAI FICAR PARA TRÁS
A inteligência artificial já entrou nas empresas, nos escritórios, nos bancos, no comércio, nas fábricas e na rotina de quem trabalha. Mas a história não é exatamente aquela que muita gente imaginou. Não estamos diante de uma máquina chegando para mandar milhões de trabalhadores embora de uma hora para outra. A mudança é mais silenciosa e já está acontecendo dentro do próprio trabalho.
Tarefas que levavam horas agora são feitas em minutos. Relatórios, pesquisas, atendimento, organização de documentos e uma série de serviços repetitivos começam a ser feitos com ajuda da tecnologia. O trabalhador continua ali, mas o jeito de trabalhar está mudando.
Um levantamento do National Bureau of Economic Research, com quase 6 mil executivos de empresas dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Austrália, mostra que 69% das empresas já usam inteligência artificial. Só que mais de 90% dos executivos disseram não ter percebido, até agora, mudança significativa no emprego ou na produtividade causada pela tecnologia.
É aí que aparece o primeiro paradoxo: fala-se muito em revolução da IA, bilhões são investidos, mas o resultado ainda não chegou na mesma velocidade para todas as empresas. Outro estudo, com quase 750 executivos, encontrou ganhos de produtividade associados à inteligência artificial, mas também mostrou que a percepção desses ganhos ainda é maior do que aquilo que aparece nos números das empresas.
Enquanto os empresários fazem essa conta, o trabalhador já começa a sentir a diferença. Não necessariamente pela demissão, mas pela mudança da tarefa. O serviço repetitivo perde espaço e cresce a necessidade de profissionais que saibam analisar, decidir, criar e trabalhar junto com a tecnologia.
E aqui está uma informação que merece atenção: a IA também está criando empregos. Segundo o Barômetro de Empregos de IA 2026, da PwC, a contratação de profissionais com conhecimentos em inteligência artificial quase triplicou no Brasil entre 2024 e 2025. A participação dessas vagas no mercado passou de 1,1% para 3,6%, chegando a quase 119 mil oportunidades.
O problema é que não basta ter uma vaga. É preciso ter gente preparada para ocupá-la. E o Brasil já sente essa dificuldade. Pesquisa da PwC mostra que 33% dos CEOs brasileiros dizem não conseguir contratar os profissionais necessários para acompanhar a transformação provocada pela IA.
A situação fica ainda mais delicada quando se olha para quem está começando. As funções de entrada, aquelas que tradicionalmente serviam para o jovem ganhar experiência, também estão mudando. Em várias atividades, a empresa já espera que o profissional chegue sabendo fazer coisas que antes eram aprendidas dentro do próprio emprego.
É uma mudança grande. E não adianta dizer simplesmente que o trabalhador precisa “se adaptar”. Adaptar-se significa estudar, treinar e ter acesso às ferramentas. Escola, universidade, empresa e governo terão de participar dessa preparação.
A boa notícia é que a inteligência artificial não está tornando o ser humano inútil. Ao contrário. Quanto mais a máquina assume tarefas repetitivas, mais valor ganham características que continuam dependendo das pessoas: criatividade, experiência, julgamento, liderança, capacidade de conversar e entender situações que não cabem em uma planilha.
A grande disputa, portanto, não será simplesmente entre homem e máquina. Será entre quem souber usar a máquina e quem não souber. Empresas que conseguirem transformar tecnologia em produtividade terão vantagem. Trabalhadores que aprenderem a trabalhar com IA também.
A revolução já começou, mas ainda está longe de terminar. A máquina ficou mais rápida. Agora é o ser humano que precisa ficar mais preparado.
E essa talvez seja a pergunta mais importante para os próximos anos: a inteligência artificial vai tirar trabalho das pessoas ou vai ajudar a criar um trabalho melhor? A resposta ainda está sendo escrita, dentro das empresas e na vida de milhões de trabalhadores.
Por Jornalista Arinos Monge



