SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO — E A CONTA PODE CHEGAR A R$ 87 MILHÕES
Baixada prepara grande rede de monitoramento de veículos, com pórticos tecnológicos, câmeras e centros de comando; projeto pretende acompanhar a circulação de carros e cargas pelas principais vias da região
Por Jornalista Arinos Monge
Quem dirige pela Baixada Fluminense pode até não perceber, mas a paisagem das ruas está ganhando um novo personagem: o olho eletrônico. E ele não pisca.
A região começa a montar uma grande rede de monitoramento de veículos, com pórticos tecnológicos, câmeras e centros de comando capazes de transformar a passagem de carros em informação para a segurança pública. É uma espécie de Big Brother sobre quatro rodas, só que sem paredão, votação ou prêmio no fim.
Documentos oficiais mostram duas atas de registro de preços que, somadas, chegam a R$ 87.414.825,07. O projeto prevê a integração de sistemas de monitoramento e informação entre diferentes municípios da Baixada.
Uma das atas, no valor de R$ 31.865.334,52, está vinculada ao Consórcio Muralha da Baixada Fluminense e prevê fornecimento, instalação, suporte técnico e manutenção de pórticos tecnológicos de informação e monitoramento digital. A estrutura será integrada ao Centro Integrado de Comando e Controle da Baixada Fluminense, o CICC-BF.
Na prática, os pórticos funcionam como pontos tecnológicos de observação das vias. Um carro passa, a placa pode ser identificada pelo sistema e a informação entra na rede de monitoramento. O objetivo é permitir que um veículo procurado ou envolvido em ocorrência seja identificado mesmo depois de atravessar a fronteira de um município.
A segunda ata chega a R$ 55.549.490,55 e envolve o fornecimento, suporte e manutenção de Centros Integrados de Comando e Controle Municipais, conectados à estrutura regional. A contratação está associada à Multivis Brasil.
É aí que a história ganha dimensão regional.
Imagine um veículo roubado em uma cidade da Baixada. O motorista foge, atravessa uma avenida, entra em outro município e segue viagem. No modelo antigo, a informação poderia ficar restrita ao município onde ocorreu o crime. Na nova estrutura, a intenção é que os sistemas estejam conectados e que a circulação daquele veículo possa ser acompanhada pela rede.
O mesmo vale para caminhões e cargas. Um veículo de transporte roubado ou uma carga desviada que percorra as principais vias da região poderá deixar registros ao longo do trajeto, aumentando a capacidade das forças de segurança de identificar a movimentação.
A tecnologia também pode ajudar na identificação de veículos com restrições, na localização de carros roubados e na produção de informações para as forças de segurança. A câmera deixa de ser apenas uma câmera. Passa a ser uma peça dentro de uma rede.
O projeto já avançou no eixo Rio-Duque de Caxias, onde sistemas de monitoramento estão sendo integrados para formar um corredor tecnológico de segurança na divisa entre os dois municípios.
Para quem vive na região, isso significa uma mudança silenciosa. O cidadão passa pela estrada, pela avenida ou pelo acesso municipal sem perceber que aquela passagem pode estar sendo registrada por equipamentos de monitoramento.
E aqui está a diferença importante: os R$ 87,4 milhões não significam que esse valor já tenha sido integralmente pago. O montante corresponde aos valores registrados nas duas atas de registro de preços. O desembolso efetivo depende das contratações, empenhos, execução, liquidação e pagamento.
Também não são dois contratos iguais. Os R$ 31,8 milhões estão diretamente relacionados aos pórticos tecnológicos da chamada Muralha da Baixada. Já os R$ 55,5 milhões abrangem os Centros Integrados de Comando e Controle Municipais.
A documentação registra ainda o processo administrativo SE/012/2026, ligado ao Pregão Eletrônico nº 90002/2026. A Ata de Registro de Preços nº 002/2026, referente ao Consórcio Muralha da Baixada Fluminense, tem vigência de 11 de junho de 2026 a 11 de junho de 2027. O consórcio está identificado pelo CNPJ 67.119.161/0001-70.
No papel, a proposta é transformar a Baixada em uma grande rede de informação. Carros, motos, caminhões e outros veículos que circulam diariamente pelas principais vias passam a fazer parte de um sistema capaz de cruzar dados e alimentar os centros de comando.
É uma mudança importante para uma região onde milhares de pessoas atravessam diariamente as fronteiras municipais para trabalhar, estudar, levar os filhos à escola, buscar atendimento médico ou simplesmente voltar para casa.
O trabalhador atravessa a divisa. O ônibus atravessa a divisa. O caminhão atravessa a divisa. E o criminoso também.
A ideia da Muralha Digital é fazer com que a informação atravesse junto.
E para quem vive do roubo de carros, motos, caminhões e cargas, a paisagem começa a mudar. Ladrões de veículos, quadrilhas especializadas em roubo de cargas e criminosos que utilizam veículos para cometer outros crimes terão pela frente uma rede cada vez maior de olhos eletrônicos.
Isso não significa que a tecnologia vá acabar sozinha com o crime. Mas muda o jogo.
O veículo roubado que antes podia desaparecer rapidamente pelas ruas da Baixada passa a encontrar uma rede de monitoramento pelo caminho. A placa identificada em um ponto pode gerar informação em outro. A movimentação de um caminhão pode ser acompanhada por diferentes sistemas. Uma ocorrência em uma cidade pode ganhar importância quando cruzada com dados de outra.
O criminoso pode atravessar a divisa. A informação também.
E quando câmeras, pórticos e centros de comando começam a trabalhar juntos, fugir de uma cidade para outra deixa de ser garantia de desaparecer do radar.
Para os donos de carros, motos e caminhões, a expectativa é de mais proteção. Para quem vive do crime sobre rodas, o recado é outro.
A Baixada está fechando o cerco.
Não é uma muralha de concreto. É uma muralha digital.
E, com tantos olhos eletrônicos espalhados pelas principais vias, os dias de contar apenas com a escuridão para esconder um carro roubado, uma carga desviada ou um veículo usado em um crime podem estar ficando para trás.
Sorriam, cidadãos.
Desta vez, quem pode estar ficando sem graça é quem vive do crime.
Fontes: Consórcio Intermunicipal de Segurança Pública da Baixada Fluminense (CISPBAF); Prefeitura de Duque de Caxias; Portal da Transparência de Duque de Caxias; Diário Oficial de Duque de Caxias; documentos dos processos administrativos; Atas de Registro de Preços nº 001/2026 e nº 002/2026.
Por Jornalista Arinos Monge



