Entre petróleo, praias e medo: Eduardo Paes desembarca em Rio das Ostras e escancara crise que trava a nova potência do interior fluminense
Rio das Ostras virou vitrine de um paradoxo que cresce silenciosamente no interior do Rio de Janeiro. De um lado, uma das economias mais promissoras do estado, embalada pela cadeia do petróleo, gás, turismo e energia. Do outro, uma cidade pressionada pelo trânsito caótico, pela ausência de infraestrutura e pelo avanço da violência.
Foi nesse cenário que Eduardo Paes desembarcou no município e transformou a visita em um discurso sobre futuro, abandono e insegurança.
A fala não teve clima de agenda protocolar. O tom foi de alerta.
Paes classificou Rio das Ostras como uma das regiões mais estratégicas do novo eixo econômico fluminense e afirmou que o município virou peça-chave no avanço energético do país. Segundo ele, o crescimento acelerado da cidade não foi acompanhado pelo Estado.
“Em pouco mais de três décadas, Rio das Ostras virou um dos municípios que mais cresce no estado do Rio de Janeiro. A população praticamente dobrou e a infraestrutura não acompanhou esse crescimento”, afirmou.
Com 28 quilômetros de litoral, 15 praias e um dos maiores PIBs per capita do estado, Rio das Ostras deixou há muito tempo de ser apenas uma cidade de veraneio. O município passou a integrar o coração logístico da indústria offshore, formando um corredor econômico junto de Macaé e outras cidades do interior fluminense.
Mas, segundo Paes, o potencial econômico da região está “engessado”.
A estrada que virou símbolo do atraso
O principal exemplo citado pelo prefeito foi a Rodovia Amaral Peixoto (RJ-106). Há anos prometida, a duplicação da rodovia voltou ao centro do debate político após o aumento do fluxo de veículos, trabalhadores e cargas pesadas ligadas ao setor de óleo e gás.
Para quem vive na região, a estrada se tornou sinônimo de congestionamento, acidentes e prejuízo econômico.
“Quem mora aqui sabe o sofrimento diário. A Amaral Peixoto não suporta mais o crescimento da região. O trânsito trava investimentos, afasta empresas e sufoca a mobilidade”, declarou.
A fala toca num problema antigo da Costa do Sol: cidades que cresceram rápido demais sem planejamento estrutural compatível. Enquanto novos empreendimentos chegam e a arrecadação aumenta, obras consideradas essenciais seguem emperradas há décadas.
O medo que saiu da capital e avançou para o interior
Mas foi ao falar sobre segurança pública que o discurso ganhou peso político.
Eduardo Paes afirmou que Rio das Ostras começou a viver um fenômeno antes associado exclusivamente à capital: o avanço territorial do crime organizado.
“Coisas que a gente só via na capital agora chegaram aqui. Comunidades dominadas pelo tráfico, população vivendo com medo e o Estado perdendo espaço”, afirmou.
A declaração joga luz sobre uma mudança silenciosa no mapa da violência fluminense. Nos últimos anos, cidades do interior passaram a registrar aumento de disputas entre facções, crescimento do tráfico e expansão de áreas sob influência criminosa.
Para Paes, o problema ameaça diretamente a economia da região.
“Sem segurança pública não há economia que prospere. Não existe turismo forte, emprego ou desenvolvimento sustentável em território dominado pelo medo. Isso vai mudar”, disse.
A nova fronteira econômica do Rio
Ao encerrar a visita, Paes tentou projetar Rio das Ostras como símbolo de um novo interior fluminense: menos dependente da capital e mais conectado à indústria, tecnologia, energia e turismo.
“Essa expertise técnica precisa gerar ainda mais empregos. Rio das Ostras pode ser uma das grandes capitais econômicas do interior do estado”, afirmou.
No fundo, a visita acabou expondo uma realidade que cresce junto com o município: o interior do Rio deixou de ser apenas promessa econômica. Agora cobra infraestrutura, segurança e presença do Estado na mesma velocidade em que cresce.
Por: Jornalista Arinos Monge



