Em Nova Iguaçu, moradores encontraram uma comparação nada delicada para definir a passagem das equipes da Águas do Rio pelas ruas da cidade: “Eles são como gafanhotos. Chegam, destroem tudo e vão embora”. A frase resume a irritação de quem vê a calçada em frente de casa ser quebrada para uma intervenção da concessionária e, depois, receber apenas uma camada de cimento antes que a equipe desapareça.
O roteiro, segundo relatos de moradores, parece sempre o mesmo. A equipe chega, abre o trecho necessário, quebra o piso, realiza o serviço, joga cimento por cima e segue para o próximo endereço. O problema é que, em muitos casos, a calçada que fica para trás não parece a mesma que existia antes da obra. O piso desaparece, o acabamento muda, surgem desníveis e o morador fica com a sensação de que recebeu um remendo, não uma recomposição.
E é aí que começa a indignação.
O cidadão gastou dinheiro para construir ou reformar sua calçada. Escolheu piso, pedra, cerâmica ou outro acabamento. Depois, chega uma intervenção da concessionária, o material é quebrado e, no lugar, aparece uma faixa de cimento.
“Eles são como gafanhotos. Destroem tudo e vão embora”, reclamam moradores.
A comparação pode parecer exagerada, mas traduz uma situação que merece explicação da empresa: quando a Águas do Rio precisa abrir uma calçada para executar um serviço, qual é o padrão utilizado para fazer a recomposição?
A concessionária devolve a calçada exatamente como encontrou?
Existe diferença quando o piso original era cerâmica, pedra ou outro material?
Quem determina o acabamento?
Qual é o prazo para a recomposição definitiva?
E quantas calçadas foram abertas pela empresa em Nova Iguaçu nos últimos anos?
São perguntas simples, mas importantes para quem vive na cidade.
Porque tapar um buraco com cimento não significa necessariamente devolver uma calçada.
Uma calçada precisa continuar sendo calçada: nivelada, segura e adequada para a circulação de pedestres.
Quando o serviço deixa um degrau, uma depressão ou uma superfície irregular, o problema passa para quem está andando. O pedestre precisa desviar. O idoso precisa redobrar a atenção. Crianças podem tropeçar. Quem utiliza cadeira de rodas enfrenta uma barreira. Quem empurra um carrinho de bebê encontra mais um obstáculo no caminho.
E tudo isso começa com uma intervenção que, em tese, deveria terminar quando o serviço é concluído.
Outro problema apontado pelos moradores é a falta de informação. Muitas vezes, a equipe chega e o proprietário simplesmente descobre que sua calçada será aberta. Nem sempre fica claro quem executará o serviço, qual é o número da intervenção, qual será o prazo de conclusão ou quando a recomposição definitiva será realizada.
O cidadão fica sabendo quando a marreta começa a trabalhar.
Depois, fica esperando pelo acabamento.
E algumas vezes parece esperar para sempre.
A situação ganha ainda mais peso porque a Águas do Rio presta um serviço essencial e realiza diariamente intervenções nas redes de abastecimento. Vazamentos, manutenção e novas ligações fazem parte da rotina da concessionária. O problema não é realizar o serviço.
O problema é o que fica depois.
A própria empresa anuncia obras e investimentos para ampliar o abastecimento em Nova Iguaçu. Em Cabuçu, por exemplo, anunciou a implantação de aproximadamente três quilômetros de novas redes, com previsão de beneficiar mais de 900 moradores.
Obras são necessárias.
Mas toda obra deixa uma pergunta: quem garante que a cidade será devolvida ao cidadão depois que a equipe for embora?
Em outra frente, a Águas do Rio também está sob investigação do Ministério Público por causa de recorrentes reclamações de desabastecimento em Nova Iguaçu. A 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva instaurou o Inquérito Civil MPRJ nº 2026.00946232 para apurar o problema e verificar eventual responsabilidade da concessionária.
Agora, os moradores colocam outro problema na mesa: a água pode até precisar passar por baixo da calçada, mas o pedestre precisa continuar conseguindo passar por cima dela.
Não é razoável que cada intervenção deixe uma nova cicatriz no caminho.
E muito menos que o morador precise aceitar um pedaço de cimento como se estivesse recebendo um favor.
A Águas do Rio precisa explicar quantas intervenções realizou em Nova Iguaçu, quantas calçadas foram afetadas, qual é o padrão de recomposição utilizado e qual o prazo para corrigir serviços considerados inadequados.
Também precisa explicar o procedimento para o cidadão que teve a calçada destruída durante uma intervenção e não concorda com a forma como ela foi recomposta.
A população não está pedindo que a empresa pare de trabalhar.
Está pedindo que trabalhe e entregue o serviço completo.
Quebre, se for necessário.
Conserte a rede.
Mas depois conserte também a calçada.
Porque o morador não pode ficar com a conta da reforma e com o “presente” da obra.
No fim, a comparação dos moradores continua ecoando pelas ruas de Nova Iguaçu:
“Eles são como gafanhotos. Destroem tudo e vão embora.”
Só que existe uma diferença.
Gafanhoto não recebe conta de água.
A Águas do Rio recebe.
E quem paga essa conta espera, no mínimo, que a empresa respeite também a calçada por onde esse mesmo cidadão precisa caminhar.
Por Jornalista Arinos Monge
Fontes: Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, Diário Oficial Eletrônico do MPRJ, Águas do Rio e registros públicos de reclamações de consumidores.




