No Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, ações culturais e redes comunitárias fortalecem o acolhimento, a denúncia e a esperança em territórios marcados pela vulnerabilidade social
Neste 18 de maio, data que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, a Baixada Fluminense volta os olhos para uma ferida antiga e dolorosa que ainda insiste em atravessar milhares de famílias brasileiras. Em meio aos números alarmantes e ao silêncio que muitas vezes cerca os casos de violência sexual infantil, projetos sociais da região vêm assumindo um papel cada vez mais decisivo na linha de frente da proteção de crianças e adolescentes.
Muito além das campanhas nas redes sociais e dos discursos institucionais, são as ações dentro das comunidades que têm feito diferença real. Oficinas culturais, atividades esportivas, rodas de conversa, acompanhamento psicológico, fortalecimento familiar e acolhimento social passaram a funcionar como verdadeiras redes de proteção em bairros onde o poder público nem sempre consegue chegar com a velocidade necessária.
Na Baixada Fluminense, iniciativas como a ONG Se Essa Rua Fosse Minha ganharam destaque regional ao integrar cultura, assistência social e mobilização comunitária em ações voltadas à prevenção da violência e ao fortalecimento da infância. A instituição nasceu em 1991, idealizada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, e já soma cerca de 35 anos de atuação social no estado do Rio de Janeiro
A ONG iniciou seu trabalho com crianças em situação de rua na capital fluminense e, ao longo dos anos, expandiu suas ações para municípios da Baixada como Nova Iguaçu, Queimados e São João de Meriti. Um dos espaços mais conhecidos da instituição funciona em Venda Velha, em São João de Meriti, através do Circo Escola Benjamin de Oliveira, referência em atividades culturais, inclusão social e fortalecimento de vínculos comunitários.
Em Nova Iguaçu, o projeto “Cultura na Faixa” desenvolve oficinas gratuitas de arte, música, cidadania e atividades esportivas para crianças, adolescentes e jovens. Já no Rio de Janeiro, a sede administrativa da ONG fica no bairro de Laranjeiras, coordenando ações sociais espalhadas pela capital e pela Baixada Fluminense. Outro importante núcleo da instituição é o Centro de Desenvolvimento Criativo Se Essa Rua Fosse Minha, voltado para formação cidadã, acolhimento social e fortalecimento de vínculos familiares.
O trabalho desenvolvido dentro das comunidades busca criar ambientes seguros, ampliar o diálogo com famílias e estimular que crianças e adolescentes reconheçam situações de abuso e saibam onde buscar ajuda. Em regiões historicamente marcadas pela desigualdade social, ausência de políticas públicas contínuas e altos índices de vulnerabilidade, projetos sociais acabam assumindo funções que vão além da assistência: tornam-se espaços de escuta, pertencimento e sobrevivência emocional.
O Maio Laranja, campanha nacional de conscientização sobre o enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de menores, também reacende um alerta importante: a maioria dos casos acontece dentro do ambiente familiar ou próximo da vítima. Especialistas apontam que o silêncio, o medo e a dependência emocional ainda são os maiores obstáculos para denúncias.
Por isso, educadores, agentes culturais e lideranças sociais defendem que o combate à violência infantil não pode acontecer apenas em datas simbólicas. A proteção precisa ser permanente, coletiva e territorializada.
Na prática, cada oficina de dança, aula de reforço, roda cultural ou atividade esportiva pode representar muito mais do que lazer. Em muitos casos, esses espaços são o único local onde crianças conseguem criar vínculos de confiança para relatar abusos, pedir socorro ou simplesmente voltar a sonhar.
Na Baixada Fluminense, o Maio Laranja vai além da cor da campanha. Ele ganha rosto, voz e resistência dentro das comunidades.



