Nova Iguaçu colocou sobre a mesa uma das decisões urbanas mais importantes da década. A Câmara Municipal aprovou, em primeira discussão, a proposta de revisão do Plano Diretor, documento que deverá orientar o crescimento da cidade pelos próximos dez anos.
Traduzindo do juridiquês para a vida real: não estamos falando apenas de um calhamaço de mapas, artigos e regras. Estamos falando de onde a cidade poderá crescer, onde poderão surgir novos empreendimentos, como o território será ocupado, quais áreas deverão ser preservadas e quais regiões poderão receber investimentos.
E é justamente aí que começa a parte interessante — e também a perigosa.
O Plano Diretor é necessário. Nova Iguaçu mudou, cresceu, ganhou novos empreendimentos, viu bairros se transformarem e continua enfrentando problemas antigos de mobilidade, saneamento, drenagem, habitação e infraestrutura. O plano atualmente em vigor é de 2011, com publicação em 2012, e a própria Prefeitura trabalha há anos na revisão. (CMNI)
A revisão não nasceu agora. O processo técnico e participativo já vinha sendo desenvolvido desde 2021/2023, com oficinas e estudos sobre o território. (Prefeitura de Nova Iguaçu)
Então por que agora?
Porque a cidade não pode continuar sendo planejada olhando para um mapa antigo enquanto a realidade muda diante dos olhos.
Nova Iguaçu tem uma característica que torna essa discussão ainda mais importante: é um município enorme territorialmente, com áreas urbanizadas, regiões de expansão, áreas ambientais, zonas de atividade econômica e bairros com níveis muito diferentes de infraestrutura.
Um novo Plano Diretor pode ajudar a colocar alguma ordem nessa expansão.
Na parte boa, a mudança pode significar uma cidade mais planejada. O poder público passa a ter uma referência para direcionar investimentos, organizar o crescimento urbano, pensar mobilidade, infraestrutura, habitação, proteção ambiental e desenvolvimento econômico.
Pode também criar condições para que investimentos privados cheguem onde realmente existe estrutura para recebê-los.
E isso interessa diretamente a quem mora na cidade.
Se o planejamento funcionar, uma nova região residencial não deveria nascer sem pensar antes em acesso, transporte, drenagem, escola, unidade de saúde, saneamento e coleta de lixo.
É o óbvio.
Mas o óbvio, em urbanismo, muitas vezes custa caro quando não é respeitado.
Agora vem o outro lado da história.
Plano Diretor também mexe com valor da terra, possibilidade de construção, atividade econômica e interesse imobiliário.
Uma mudança de zoneamento ou de parâmetros de ocupação pode transformar uma área antes pouco valorizada em região estratégica para novos empreendimentos. Pode aumentar o valor de terrenos. Pode facilitar determinados investimentos. Pode restringir outros.
E é aí que o cidadão precisa ficar de olho.
Quem ganha com a mudança?
Quem perde?
Quais bairros serão beneficiados?
Quais áreas poderão receber mais construções?
Onde haverá restrições?
Quais regiões terão prioridade para infraestrutura?
E, principalmente: o interesse do morador está no centro do plano ou o mercado imobiliário também está olhando para essa nova fotografia da cidade?
Não há nada de errado em atrair investimentos. Nova Iguaçu precisa de emprego, renda, comércio, serviços e infraestrutura.
O problema começa quando o crescimento chega antes da estrutura.
Uma cidade pode ganhar prédios, condomínios e empreendimentos e continuar com ruas sem drenagem, transporte insuficiente, esgoto precário e equipamentos públicos distantes.
Por isso, o Plano Diretor não pode ser apenas uma autorização para a cidade crescer.
Ele precisa ser uma regra para a cidade crescer com responsabilidade.
A discussão também interessa diretamente aos pequenos proprietários. Uma alteração nas regras de ocupação pode influenciar o que poderá ser construído em determinados terrenos e como determinadas áreas poderão ser utilizadas no futuro.
Interessa ao comerciante.
Interessa ao empresário.
Interessa ao setor imobiliário.
Interessa ao produtor rural.
Interessa ao ambientalista.
E interessa, principalmente, ao morador que talvez nem saiba que uma decisão tomada agora poderá interferir no bairro onde ele vive durante os próximos dez anos.
É por isso que a aprovação em primeira discussão merece mais atenção do que recebeu.
O projeto ainda terá caminho pela frente. E esse caminho precisa ser acompanhado pela sociedade.
Porque Plano Diretor não é assunto apenas de vereador, prefeito, arquiteto, engenheiro ou empresário.
É sobre a cidade que cada iguaçuano vai encontrar daqui a cinco, oito ou dez anos.
A pergunta que fica não é se Nova Iguaçu precisa de um novo Plano Diretor.
Precisa.
A pergunta realmente importante é outra:
quem vai desenhar a Nova Iguaçu do futuro — e quem vai pagar a conta desse crescimento?
É nessa resposta que estará o verdadeiro tamanho da mudança.
Por Jornalista Arinos Monge




